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Este tema tem traços comuns com o tema tratado nas notas sobre web design a que chamei a Persistência da Memória na Web.

Paleofotografia: as fotos de hoje vistas no futuro

O número de fotografias registadas cresce constantemente. Quantas delas serão acessíveis daqui a cinquenta ou cem anos? Como são arquivadas? Por quem ?

Nesta nota, começo por rever brevemente a evolução do mercado das fotografias para amadores, para me concentrar a seguir na perenidade do acesso às fotografias digitais de hoje:

  1. A multiplicação das fotografias
  2. A economia da fotografia digital
  3. Ver as fotografias
  4. Guardar as fotografias
  5. Os arquivistas
  6. Paleofotografia: antevisão de uma nova arqueologia
  7. Conclusões
  1. Multiplicação de fotografias
  2. Economia da fotografia digital
  3. Ver as fotografias
  4. Guardar as fotografias
  5. Os arquivistas
  6. Paleofotografia
  7. Conclusões

1. A multiplicação das fotografias

Estou seguro que o número de fotografias tiradas em todo o mundo está em crescimento constante e que o ritmo de crescimento aumentou substancialmente com as máquinas digitais que tornam o custo marginal das fotografias quase nulo.

Sendo eu uma amostra de dimensão mínima, tiro mais de 1000 fotografias digitais por mês, ou seja, o equivalente a 1 rolo de 36 fotografias por dia. Quando usava máquinas fotográficas de filme tirava menos de cinco rolos de 36 exposições por mês, e usava sobretudo diapositivos montados em casa, reduzindo assim a despesa.

Numa frase: multipliquei por seis o número de fotografias registadas. E se a maior parte dos amadores tira muito menos fotografias do que eu, não me surpreenderia se a rezão entre fotografias digitais e fotografias em filme fosse semelhante ou até superior.

Há um período inicial em que muitos utilizadores usam a máquina digital como usavam a máquina de filme (também chamada "analógica"). Há até quem mande imprimir o cartão todo, como se se tratasse de um rolo de filme. Todavia, e à medida que as máquinas se tornam mais acessíveis e fáceis de usar, os utilizadores aprendem a só imprimir as fotografias melhores. O passo seguinte é multiplicar o número de fotografias para depois poder escolher a "melhor fotografia" de cada tema. Daqui resulta a multiplicação das fotografias.

E o que acontece às fotografias? As melhores são impressas, as outras são guardadas em computadores, gravadas em CD-R ou DVD-R, ou simplesmente apagadas dos cartões de memória.

  1. Multiplicação de fotografias
  2. Economia da fotografia digital
  3. Ver as fotografias
  4. Guardar as fotografias
  5. Os arquivistas
  6. Paleofotografia
  7. Conclusões

2. A economia da fotografia digital

Quando os utilizadores mudam do paradigma do filme para o paradigma do cartão de memória, há uma revolução no mercado da fotografia:

  • Com máquinas de filme, os fabricantes de equipamento vendiam pouco equipamento, tipicamente, caro e duradouro. A grande facturação estava nos serviços de revelação e impressão, popularizados em minilabs quase automáticos que revelavam milhões de fotografias em todo o mundo.
  • Com máquinas digitais, os fabricantes procuram vender muito equipamento, inicialmente caro mas progressivamente mais barato e com ciclos de vida curtos. Facturam assim muito mais, em prejuízo dos serviços de revelação e impressão.

Em 1999, quando a fotografia digital se tornou comum nas sociedades desenvolvidas (entenda-se os países da OCDE, por exemplo), a revelação e impressão de cópias de negativos que se obtinha uma hora depois de deixar o rolo na loja, era muito mais barata e rápida do que a impressão de fotografias digitais. Neste caso, era preciso levar as imagens num suporte especial - na altura os gravadores de CD-R eram raros - aguardar o envio para um laboratório industrial para processamento e o trabalho estaria disponível vários dias depois.

Ao mesmo tempo, surgiam impressoras a cores com bastante qualidade e baratas que entusiasmaram milhões de amadores a montarem um laboratório doméstico, reduzindo o custo marginal das fotografias apenas aos consumíveis de impressão. Cedo descobriram que esse custo é elevado e que as fotografias raramente ficavam tão boas como as dos minilabs. A reacção dos fabricantes de impressoras foi melhorar a qualidade e o preço de máquinas e consumíveis, procurando baixar os preços. Hoje, é possível comprar uma impressora de jacto de tinta com qualidade dita fotográfica pelo preço de dois tinteiros e 50 folhas de papel fotográfico 10x15cm (4x6in), ou seja, cerca de EUR200 (USD240).

Simultaneamente, os fabricantes de minilabs não quiseram assistir à extinção do seu negócio e logo perceberam que teriam de incluir nos seus serviços as tecnologias digitais. Em consequência, um minilab actual trata indistintamente um rolo de filme em formato 35mm como os vários formatos de cartões de memória. No coração da máquina está um sistema de impressão digital de alta qualidade e usa-se um digitalizador para ler o filme de 35mm. Hoje, em Portugal, as cópias digitais de um minilab são normalmente mais caras do que as cópias analógicas, mas a diferença já é mínima (menos de 10%) e até há laboratórios que já não processam filmes.

Aparentemente, o mercado regressou ao ponto de equilíbrio anterior. Contudo, não é exactamente assim:

  1. Os fabricantes de equipamento de fotografia estão a vender muito mais em volume de máquinas e valor.
  2. Os laboratórios de impressão sentem que o negócio não acompanha a vivacidade do mercado e a queda de facturação só não é mais brusca porque a passagem do filme ao digital é gradual.
  3. Nasceu um novo mercado na impressão doméstica e de escritório. Não consigo ainda perceber qual será o ponto de equilíbrio entre a impressão doméstica (e no escritório) e a impressão nos minilabs.

Fazendo o balanço destas mudanças há muitos ganhos a registar:

  • A fotografia está mais divulgada e ao alcance de mais pessoas,
  • É possível partilhar fotografias de múltiplas formas, do correio electrónico ao écran da televisão, e até por papel como antigamente,
  • É possível guardar fotografias em múltiplos suportes electrónicos: discos rígidos, CD-R, DVD-R, cartões de memória, etc.,
  • Há uma poupança ecológica significativa no processamento de filmes, uma indústria química bastante poluente.

e algumas perdas:

  • Dentro de alguns anos, a sucata fotográfica será um problema análogo ao que é hoje a sucata de computador,
  • Há uma grande maioria de fotografias que só pode ser vista com equipamento electrónico.
  1. Multiplicação de fotografias
  2. Economia da fotografia digital
  3. Ver as fotografias
  4. Guardar as fotografias
  5. Os arquivistas
  6. Paleofotografia
  7. Conclusões

3. Ver as fotografias

No contexto da fotografia digital, as formas de ver fotografia diversificam-se. Enquanto os vendedores de serviços e equipamentos de impressão procuram promover o acesso às fotografias em papel, os "electrónicos" procuram promover as imagens na Internet, na televisão, no telemóvel ou em projecção na parede.

Note-se que é possível converter fotografias em filme para fotografias digitais mas o processo inverso está (muito) restrito a usos profissionais.

Quais as vantagens e inconvenientes de ver as fotografias em papel ou em formato electrónico? A tabela abaixo resume o cenário à disposição dos utilizadores amadores: minilabs, impressão doméstica e fotografia electrónica.

Fotografia em papelFotografia electrónica
VantagensVantagens
  • Bastam os olhos para ver as imagens,
  • O papel é um suporte universal,
  • A impressão tem um nível de qualidade e resistência elevados.
  • As imagens podem ser visualizadas em diversos tamanhos e formatos,
  • As imagens podem ser facilmente ampliadas para destacar pormenores,
  • As imagens podem ser transmitidas à distância,
  • As imagens podem ser duplicadas a custo ínfimo,
  • As imagens não se alteram com o tempo.
InconvenientesInconvenientes
  • O custo de duplicação é significativo,
  • As imagens desvanecem lentamente.

comparando as impressões domésticas com os minilabs, constata-se ainda que:

  • O custo por cópia é mais elevado,
  • As tintas envelhecem mais depressa,
  • O papel é menos resistente.
  • É necessário um dispositivo electrónico para ver as imagens,
  • Os dispositivos para ver as imagens podem diferir nas várias regiões do mundo, dificultando o acesso,
  • O autor perde o controlo do número de cópias,
  • Perde-se muito tempo a ver fotografias insignificantes.

Em resultado da multiplicação de fotografias e da facilidade de duplicação e transmissão, as imagens da fotografia digital têm muito menos valor do que tinham as fotografias em filme.

Para ilustrar um produto, uma pessoa ou um acontecimento, os autores seleccionavam cuidadosamente e mandavam produzir uma ou duas fotografias. Hoje, por qualquer motivo, se transmitem 10 ou 20 fotografias por correio electrónico (e-mail), com escassa selecção e muito semelhantes entre si, acrescentando cada uma delas pouco valor em relação ao conjunto de todas as fotografias.

Quando o espectador tinha uma só foto em papel para ver, detinha-se sobre ela, mudava de ângulo e de distância de observação e esquadrinhava os pormenores. Hoje, como tem uma longa lista de imagens electrónicas para ver, percorre-as quase sem olhar, buscando sempre que a seguinte lhe diga algo mais.

Em consequência, ver fotografias digitais tornou-se uma tarefa mais morosa e, frequentemente, menos valorizada e menos gratificante. Usando os princípios económicos que combinam escassez e alto custo com valor e abundância e baixo custo com insignificância, os autores e espectadores continuam a valorizar e preferir as fotografias em papel, em especial as grandes ampliações.

Em resposta a este conservadorismo, os "electrónicos" procuram imitar as amplições em papel, propondo até cruzamentos de paradigmas como uma moldura com um écran onde se apresentam fotografias que mudam periodicamente.

  1. Multiplicação de fotografias
  2. Economia da fotografia digital
  3. Ver as fotografias
  4. Guardar as fotografias
  5. Os arquivistas
  6. Paleofotografia
  7. Conclusões

4. Guardar as fotografias

A conservação de fotografias abrange o problema dos formatos de ficheiros e dos formatos físicos dos arquivos. Uma análise dos vários formatos de ficheiro de imagem está para lá do âmbtio desta nota, referindo-se apenas alguns aspectos dos formatos mais populares, no contexto do armazenamento de longa duração.

Os formatos lógicos variam muito ao longo dos anos, até se impôr a influência "normalizadora" da Internet; desde essa altura, o JPEG impôs-se como o formato mais comum para armazenar fotografias, e mesmo para as capturar nas máquinas digitais, apesar dos inconvenientes resultantes do tipo de compressão com perdas usado.

Outros formatos foram surgindo para colmatar estas falhas: o PNG-Portable Network Graphics oferece compressão com e sem perdas, o JPEG2000 oferece melhores algoritmos de compressão. Todavia, continuam a ter uma popularidade limitada por várias razões, indicadas por ordem decrescente de importãncia :

  1. A maioria dos utilizadores não sente a necessidade de mudar de formato, e não associam as imperfeições da imagem ao formato do ficheiro.
  2. A maioria dos utilizadores que grava em JPEG estará satisfeita com a qualidade das imagens e normalmente nem usa o menor grau de compressão que permitiria melhorar a qualidade das imagens em prejuízo do número de imagens que cabem num cartão de memória.
  3. O alargamento da Internet e da fotografia digital a públicos com menores conhecimentos informáticos, leva a que a maioria das imagens não seja processada, sendo utilizada em bruto.
  4. Em consequência, os fabricantes de máquina preferem armazenar imagens nos formatos mais acessíveis aos utilizadores.
  5. Os programas de processamento de imagem prolongam a preponderância dos formatos tradicionais.

Em suma, não se adoptam os melhores formatos (por exemplo, TIFF ou JPEG2000) mas sim os mais comuns. Enquanto a maioria das máquinas não gravar as imagens nos melhores formatos, a sua relevância será marginal.

Se esta opção pode ser prejudicial à qualidade das imagens arquivadas, tem vantagens na acessibilidade espacial e temporal das imagens. Se os utilizadroes de diversas regiões da Terra usassem formatos diferentes ou se os formatos de ficheiro mudassem com frequência seria inevitável a perda de compatibilidade, aumentando a dificuldade de acesso a fotografias antigas ou de outras regiões.

Apesar de tudo, este risco é moderado, pois a inclusão da capacidade de leitura em muitos formatos num programa tem um custo diminuto. Já não é assim com a capacidade de escrita pois há questões legais e comerciais em torno de alguns formatos (um dos motores do PNG foram as questões suscitadas pelos direitos do formato GIF). Uso imagens em computador há 16 anos e ainda só perdi o acesso a algumas que foram criadas em formatos proprietários.


O armazenamento físico de imagens digitais pode ser feito em papel ou numa variedade de formatos digitais. Não abordarei o problema do armazenamento em papel por falta de competência, mas reconheço que ele existe e é sobremaneira importante nas fotografias impressas em casa com impressoras de jacto de tinta.

O armazenamento em formato digital recorre a diversos suportes que analisarei em seguida.

CD-R

O CD-R surgiu no mercado em 1993 e é actualmente o modo mais comum de armazenamento e pode ser lido por quase todos os leitores de CD informáticos e pela maioria dos leitores de discos de entertenimento. A capacidade começou em 0,65GB (GB=gigabyte) e cresceu depois para 0,7GB. Alguns leitores mais antigos não conseguem ler a capacidade adicional dos novos CD-R.

Prevê-se longa vida para o formato porque os sucessores mantém retrocompatibilidade dos leitores e dos formatos de armazenamento. Todavia, também os discos de vinil pareciam eternos e "desapareceram" 15 anos após o aparecimento do CD no início da década de 1980.

Baseia-se numa tecnologia óptica que codifica a informação binária "queimando" os elementos de uma camada plástica. Não pode ser apagado ou reescrito - o que é vantajoso para armazenamento de longa duração. Pode suceder que a camada não queimada se degrade com o uso ou com o envelhecimento dos plásticos.

A propósito do envelhecimento de CD-R, sugiro o artigo "Ever decreasing circles" do jornal inglês "The Independent". onde se refere um estudo estatístico de envelhecimento em que várias marcas de CD-R, sobretudo as mais baratas, se tornam precocemente ilegíveis - algumas apenas dois anos após a gravação.

O custo actual por gigabyte está em cerca de EUR 0,4 (USD 0.5), o que é muito barato. Não obstante, há significativas variações no preço e o utilizador deve prestar atenção à qualidade dos CD-R. Não faz sentido confiar as suas memórias a um suporte de má qualidade apenas para poupar algum dinheiro.

O CD-RW é uma evolução reescrevível do CD-R, baseado numa tecnologia magneto-óptica. Não oferece nenhuma vantagem sobre o CD-R para armazenamento duradouro, é mais caro e os dados correm maior risco de degradação.

DVD-R

O DVD-R surgiu em 2002 e baseia-se no princípio de funcionamento de um CD-R com uma capacidade aumentada. Traz ainda a novidade de poder ter várias camadas e um feixe de laser que foca a diferentes distâncias para ler as várias camadas. As capacidades ainda estão a aumentar (por aumento do número de camadas) e actualmente um DVD-R de 4,7GB oferece um custo de armazenamento entre EUR 0,5 e EUR 1 (USD 0.6 e USD 1.2).

Sobre os CD-R, o DVD-R tem a vantagem da maior capacidade de armazenamento num suporte físico do mesmo tamanho, por um custo comparável. Hoje, um DVD-R de 14 GB (seis camadas) oferece a capacidade de 20 CD-R e prevê-se que o número de camadas continue a aumentar.

Tem o inconveniente de haver uma menor difusão dos leitores e de haver variantes nos protocolos de escrita, o que poderá criar dificuldades de compatibilidade entre diversas regiôes do mundo e entre épocas.

Bancos de imagens

Os discos rígidos têm acompanhado o ritmo de crescimento da indústria e oferecem hoje centenas de gigabytes ...

(o primeiro PC que usei em 1998 não tinha disco rígido mas apenas duas diskettes de 360Kb e os discos rígidos da época tinham 20Mb)

... por um custo quase constante a preços nominais (e por isso decrescente a preços reais).

Por isso, há quem opte por guardar as suas imagens em disco rígido, num computador próprio ou num serviço dedicado a este fim: um banco de imagens partilhado, acessível por Internet e que disponibiliza grande quantidade de fotografias, sempre acessíveis e por preços competitivos.

É uma solução interessante, sobretudo para autores que pretendam vender as suas fotografias on-line. Há no entanto que acautelar a solidez e idoneidade dos serviços, que são particularmente voláteis na Internet. E, por prudência, guardar um arquivo em casa :-)

Tapes e dispositivos magnéticos

Durante anos os backups das organizações eram realizados em fita magnética, com os inconvenientes da lentidão do processo, o acesso sequencial (era necessário percorrer a fita desde o princípio até ao ponto desejado), e as exigências de armazenamento: protecção de luz, campos electromagnéticos, intervalos limitados de humidade relativa e temperatura.

Eram os dispositivos de armazenamento por excelência, oferecendo gigabytes de capacidade ainda na década de 1990. Com as tecnologias ópticas actuais tornaram-se obsoletos em velocidade de acesso, capacidade, robustez e probabildade de falha.

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  3. Ver as fotografias
  4. Guardar as fotografias
  5. Os arquivistas
  6. Paleofotografia
  7. Conclusões

5. Os arquivistas

A missão da Biblioteca Nacional Portuguesa (www.bn.pt) é armazenar, conservar e dar acesso a todas as publicações editadas em Portugal, por mais modestas que sejam: jornais, monografias, livros, revistas, etc., todos os editores de materiais impressos devem enviar cópias para arquivo na Biblioteca Nacional. Se esta tarefa já era ciclópica no final do séc. XX dado o número de publicações, tornou-se impossível com a difusão dos conteúdos audiovisuais e com a Internet.

Mais do que quantidade de dados a guardar, a tarefa é impossível por causa da multiplicação e dispersão dos autores (com tão poucos meios como eu!) e da volatilidade dos conteúdos na Internet (de que os blogs são um bom exemplo).

Está portanto excluído o arquivo central de todos os conteúdos. Quem serão então os arquivistas e bibliotecários da era da Internet ?

Em primeiro lugar, os autores e seus descendentes.

É muito barato e simples guardar imagens em formato digital, desde que se tenha o mínimo de cuidado com o armazenamento e a com a conversão de formatos quando se muda de suporte de armazenamento e de protocolo. Todavia, como a maioria dos utilizadores não tem vocação de arquivista nem o tempo e devoção necessários, limitar-se-á a empilhar CD-R ou DVD-R em gavetas ao longo dos anos, do mesmo modo que no passado guardavam as fotografias em papel numa caixa velha. Descobrir o contexto de uma fotografia anos depois dela ser tirada é um exercício de memória ou de adivinhação. Quando um fotógrafo morrer, os seus descendentes perderão todo esse conhecimento tácito e de arquivo informal.

Um bom arquivo exige mais e os ficheiros de fotografias digitais fornecem soluções que facilitam o arquivamento. Desde a origem que as fotografias incluem a data e um conjunto de dados técnicos (os dados EXIF). Há casos em que podem incluir as coordenadas onde a fotografia foi tirada, adquirida por GPS. Outras máquinas permitem ainda associar uma nota de voz às fotografias.

Além disso, os formatos actuais (creio que todos sem excepção) permitem guardar um pequeno texto descritivo - tal como antigamente se escrevia no dorso das fotografias - sem alterar o conteúdo da fotografia ou dos dados EXIF. Outra alternativa é organizar o arquivo por pastas e incluir uma descrição de cada pasta num ficheiro de texto separado. Por isso, um arquivo satisfatório está ao alcance do amador.

Os segundos arquivistas são os bancos de imagens. Há-os públicos e privados, gratuitos e pagos, abertos e restritos.

Sendo iniciativas recentes, não têm ainda um grande peso de arquivo morto. Com o correr dos anos, contudo, o crescimento da base de dados realçará a necessidade de rentabilização, obrigando a uma gestão mais exigente do acervo fotográfico que já não desperta interesse. Poderão disponibilizar comercialmente arquivos pessoais para os rentabilizar, obrigar os utilizadores a pagar pelo espaço se não gerarem receita suficiente (medida em compras de cópias ou anúncios vistos) ou poderão simplesmente apagá-los.

Os terceiros arquivistas por necessidade são as empresas e demais organizações de índole profissional.

Como têm a noção do valor da informação e como o custo de manutenção é baixo, sentir-se-ão levadas a arquivar quase tudo, quase para sempre. Afinal, o custo marginal dos arquivos de fotografias é insignificante nos custos operacionais e nunca se sabe quando uma fotografia pode vir a ser útil. Na maioria dos casos não investirão no arquivo mas mantê-lo-ão num limiar mínimo de acessibilidade.

Um caso especial de arquivo profissional é o do fotógrafo profissional ou a agência de fotografia: quando a empresa tem como negócio a venda de fotografias procura optimizar o arquivo do seu activo mais precioso.

Finalmente, surgem os arquivistas por excelência: os museus e colecções de fotografia.

Seleccionam os melhores e as melhores obras de cada autor, por isso dificilmente farão um arquivo sistemático de um autor, quanto mais de um amador anónimo. Em contrapartida, os arquivos são perfeitamente organizados e as obras são contextualizadas e comentadas. Um óptimo exemplo destas colecções na Internet é dado por este arquivo de Ansel Adams onde se podem apreciar belíssimas paisagens americanas.

Esta forma de arquivo está reservada aos fotógrafos mais reconhecidos pelos seus concidadãos, que se dispõem a custear o arquivo das obras mais relevantes para benefício das gerações futuras.

Redundância

Sendo as obras de arte digitais infinitamente multiplicáveis, é possível e interessante criar arquivos redundantes. Por isso, não hesite em guardar as suas fotografias mesmo que as arquive num banco de imagens.

Se algum dos arquivos se perder, terá sempre o consolo de recuperar a informação mesmo que esteja ligeiramente alterada pelas características do arquivo.

E já agora, guarde uma cópia em papel das fotografias que mais gosta para o caso de não dispôr de ferramentas electrónicas de acesso às fotografias.

Verificação e manutenção do arquivo

Além de construir um arquivo é importante mantê-lo: verificar se os CD-R continuam legivéis, se as ligações (links) nos bancos de imagem continuam acessíveis e correctas, etc..

É boa ideia duplicar os CD-R de 10 em 10 anos para garantir o acesso sem erros (e, se puder, guarde os antigos para melhorar a redundância). É indispensável assegurar a compatibilidade de formatos de hardware. O primeiro salto geracional após os CD-R ocorre agora com os DVD-R, embora os fabricantes garantam a retro-compatibilidade dos leitores de DVD com os CD-R. É uma boa altura para fazer uma cópia dos seus CD-R, não acha? Um DVD-R de 4.7GB tem uma capacidade próxima de 7 CD-R. E já agora, guarde os dois arquivos em casas diferentes, não vá uma catástrofe estragar-lhe o arquivo.

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6. Paleofotografia: antevisão de uma nova arqueologia

A civilização egípcia caracterizou-se por uma forte actividade de escrita e armazenamento de informação. Ainda hoje a imagem do escriba acocorado com o seu papiro sobre os joelhos, as paredes cobertas de hieroglifos e a Grande Biblioteca de Alexandria são símbolos de uma cultura que prezava o registo e a conservação do saber. A maioria dos "papéis" dizia respeito a actividades burocráticas relacionadas com a agricultura e a gestão centralizada de um reino que se estendia ao longo do rio Nilo.

Quando os arquólogos encontram um desses papiros ficam entusiasmados e destacam o valor da descoberta, apesar de ser, quase sempre, uma informação banal sobre o quotidiano egípcio. Se em vez de descobrirem dez por ano, descobrissem mil por ano, o valor acrescentado de cada um deles seria muito menor, porque repetiriam informações muito semelhantes.

Do mesmo modo, quando as pessoas dos séculos futuros quiserem conhecer a nossa vida terão de recorrer a uma nova especialidade: a paleofotografia. Os paleofotógrafos estarão encarregues de conseguir ler os nossos arquivos electrónicos (discos rígidos, CD-R, DVD-R, etc.), interpretar os formatos de codificação de imagem, e assim abrirem uma janela para os longínquos séculos XX e XXI. Serão porventura tão raros como são hoje os especialistas em hieroglifos ou em escrita de iluminuras medievais.

Uma vez decifradas as fotografias, as pessoas dos séculos futuros ficarão encantadas por descobrirem o que nos interessava: bebés, animais e pôr-do-sol, recordações de festas, grupos de amigos em viagem e outras cenas pueris. Aos milhões não valem nada, às centenas valerão muito! Para que tal seja possível, devemos empenhar-nos hoje no seu arquivo, pelo menos tanto quanto os nossos antepassados egípcios, para que se saiba como era a Terra na época em que se inventou a máquina fotográfica...

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7. Conclusões

As fotografias custam e valem cada vez menos. Para recuperar o valor da fotografia, os autores devem aproveitar a oportunidade de capturarem muito mais fotografias não para as divulgar todas, mas para apurar a sua técnica e seleccionar aquela fotografia que melhor exprime a mensagem a comunicar.

O arquivo das fotografias é a garantia de memória para o futuro. O arquivo digital oferece vantagens mas também muitos riscos e ao longo dos séculos perder-se-á a maioria das imagens. Devemos armazenar muito para que as gerações vindouras tenham acesso a algumas imagens - esperemos que as mais significativas.

Arquivar não corresponde a tratar todas as fotografias por igual. À hierarquia da qualidade deve corresponder a hierarquia do arquivo; e deve-se tirar partido da reprodutibilidade das fotografias para criar redundância no arquivo.

Referências

Ever decreasing circles, The Independent
Artigo sobre o envelhecimento de CD-R, Abril 2004.
Paisagens de Ansel Adams
Um vasto conjunto de fotografias disponibilizadas gratuitamente pelos Estados Unidos da América a todos os seus cidadãos, e que os estrangeiros podem apreciar.
 
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Escrito entre Agosto de 2003 e Julho 2004.inicio da página