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Limitações da fotografia digital em 2002

As máquinas digitais já permitem substituir as máquinas compactas analógicas nas fotografias do quotidiano, mas mantém algumas limitações constrangedoras para quem está habituado a uma reflex analógica. Não obstante os grandes melhoramentos dos últimos dois anos, há ainda um longo caminho a percorrer.

O ano de 2002 em Portugal marcou a difusão das máquinas digitais pelo grande público. Alguns sinais:

  • as máquinas digitais fazem as primeiras páginas dos catálogos dos vendedores, quer especializados, quer generalistas,
  • os laboratórios passaram a aceitar "filmes" digital para provas 10x15cm praticamente ao mesmo preço dos filmes convencionais de 35mm,
  • as lojas de artigos turísticos começam a ter "filmes" digitais,
  • generalizaram-se as máquinas "point-and-shoot" para quem não sabe - nem quer saber - regular a máquina,
  • as impressoras de jacto de tinta estão quase ao preço dos cartuchos de tinta
  • surgem versões económicas (aprox. €100/USD 100) com resolução até 1.3Mpixel para que todos possam dispôr da tecnologia.

E se uma máquina digital já é um substituto válido para uma máquina compacta ("point and shoot") de 35mm, os utilizadores de SLR (single lens reflex) e outras máquinas mais complexas resmungam e denigrem o formato digital. Embora use intensivamente máquinas digitais, incluo-me no grupo dos que não estão satisfeitos e continuam a reclamar melhorias nas máquinas digitais para amadores (€1000 - €2000/USD 1000-2000), esperando que ao longo dos anos os melhoramentos se estendam às máquinas de preços inferiores.

Tempo de atraso até ao disparo

No passado, esta limitação era um dos maiores constrangimentos no uso de máquinas digitais em cenas com movimento: pessoas, desporto e animais. Era frequente esperar mais de três segundos depois de carregar no botão do obturador até que a fotografia fosse efectivamente capturada. E se em alguns temas é possível prever onde o curso da cena estará três segundos depois (como numa corrida de automóveis ou motos) outros, como as crianças ou animais, são por natureza imprevisíveis e está aí parte do encanto do instantâneo.

O tempo de atraso resulta do processamento que a máquina tem de fazer antes de tirar a fotografia: foco automático, selecção da sensibilidade ISO, medição da exposição (combinando diafragma e tempo de obturação) e balanço de brancos. Em algumas máquinas notam-se melhorias significativas se o utilizador ajudar a máquina, reduzindo os automatismos, seleccionando a sensibilidade ISO e o balanço de brancos, por exemplo.

As melhorias nos processadores internos das máquinas têm minimizado este inconveniente mas ele ainda é sensível, sobretudo nas máquinas mais "automáticas", por sinal aquelas em que os utilizadores menos compreenderão as causas do atraso.

Note-se que embora o processamento total das imagens se alongue à medida que os formatos das imagens aumentam, o tempo de atraso até ao disparo é pouco sensível a esta diferença, pois os algoritmos das máquinas baseiam-se em amostragens de um conjunto de pixels da imagem e não na totalidade dos pixels.

Sequências de fotografias

No tempo das máquinas analógicas, só os profissionais se podiam permitir tirar rajadas (bursts) de fotografias. Se uma máquina fazia 1.7 fps (fotos por segundo) significava que um rolo de 36 exposições terminaria em cerca de 22 segundos. "Queimar" filme a este ritmo seria uma despesa incomportável para um amador.

Todavia, o advento da fotografia digital deu asas aos sonhos dos amadores: agora também eles poderiam gastar rolos a eito e depois escolher as melhores fotografias. Infelizmente, a maioria das máquinas para amadores inviabiliza este sonho, porque não permite fazer mais do que uma ou duas fotos em sequência.

A razão é simples: tempo de processamento. Entre dois disparos consecutivos do obturador ocorrem as seguintes operações:

  1. Compressão da imagem ora capturada (normalmente em formato TIFF ou JPEG); as máquinas que permitem formatos "raw" não comprimem as imagens e por isso reduzem este intervalo de tempo,
  2. Armazenamento das imagens em memória,
  3. Estimação dos parâmetros da fotografia seguinte (sensibilidade ISO, medição da exposição e balanço de brancos, como foi descrito atrás); algumas máquinas têm modos de rajada (burst) que permitem reduzir este tempo pois copiam alguns dos parâmetros usados na foto anterior.

A limitação das sequências de fotografias está no armazenamento das imagens em memória, que é a fase mais morosa do processo. Dada a multiplicidade de suportes de armazenamento usados - RAM, SmartMedia, CompactFlash, Sony Memory Stick, IBM MicroDrive, Secure Digital (SD), eXtreme Digital (XD), floppy disk (disquete), CD-R, etc. -, o tempo de armazenamento varia significativamente, mas em quase todos os casos é demasiado longo para atingir um ritmo de repetição elevado. Por isso, a maioria das máquinas inclui uma memória RAM para armazenamento temporário até que as imagens sejam guardadas no suporte permanente.

Deste modo, a capacidade de fazer uma sequência de imagens depende sobretudo da quantidade de memória RAM disponível e do tamanho de cada imagem. Numa frase, a extensão da sequência de fotos depende da capacidade da RAM em imagens.

Infelizmente, esta memória temporária tem um peso significativo no custo final das máquinas e não surpreende que os fabricantes a reduzam, sobretudo nos modelos destinados a amadores pouco experientes, logo menos atentos aos pormenores. Este problema põe-se também a nível profissional, mas nesses casos os fabricantes optam por disponibilizar extensões de memória como acessório.

Em algumas máquinas para amadores esta memória é tão escassa que não permite tirar uma segunda foto na resolução máxima sem que a anterior esteja guardada no suporte de armazenamento.

Finalmente, o tempo de compressão das imagens e de escrita nos suportes de armazenamento depende da dimensão das imagens e do grau de compressão. Se uma compressão menor é mais rápida, por outro lado resulta num ficheiro maior. Por isso, é quase indiferente escolher o grau de compressão para ganhar tempo; este deve ser escolhido em atenção à qualidade das imagens requerida.

O que pode valer a pena é reduzir a dimensão das imagens em pixels, pois reduz-se o tempo de compressão, aumenta-se o número de imagens que cabem na memória temporária e reduz-se o tempo de escrita no suporte de armazenamento. Algumas máquinas com modos de rajada (burst) obrigam ao uso de uma resolução intermédia - é o caso da Olympus C2000z - para permitir uma sequência de disparos mais longa.

Em conclusão, se gosta de fotografar instantâneos de crianças ou animais, ou se quer tirar sequências de instantâneos de pessoas sem que elas notem para depois escolher uma, informe-se sobre as capacidades da máquina que pretende usar.

Escassez de grandes angulares

Para os amadores de paisagens e de fotografias urbanas como eu, a escassez de grandes-angulares é a pior limitação das máquinas digitais. Os modelos para amadores têm distâncias focais mínimas equivalentes a 32, 35 ou 38mm no formato analógico do filme 35mm. Isto resulta em paisagens aplanadas, reduzindo o dramatismo dos elementos em primeiro plano.

A limitação técnica resulta da dificuldade e do custo acrescido de fabricar elementos sensíveis (CCD ou CMOS) de maiores dimensões. Quanto maior fôr o sensor, mais caro é, e mais peças defeituosas são fabricadas, contribuindo para um preço maior.

Por enquanto não há nada a fazer, a não ser esperar ou abrir os cordões à bolsa. A partir de €2000 / USD 2000 há máquinas há máquinas SLR digitais que usam objectivas intermutáveis do formato de 35mm mas têm um sensor de imagem (CCD ou CMOS) de dimensão inferior aos 24x36mm do formato de filme. Isto resulta num factor multiplicativo (de teleobjectiva). Por exemplo, a Fujifilm FinePix S2 Pro tem um factor multiplicativo de 1.5x, o que transforma uma objectiva média de 50mm em 75mm, e uma grande-angular de 20mm em 30mm. A partir de €10000 / USD 10000 já há máquinas SLR digitais com objectivas intermutáveis - por exemplo a Canon EOS-1Ds - e que têm sensores de imagem com 24x36mm, mantendo a relação das distâncias focais.

Teoricamente, haveria outra solução: a miniaturização. Fazendo sensores de imagem mais densos e sistemas ópticos ainda mais pequenos seria possível obter grandes-angulares aproximando as lentes do sensor. Contudo, além do aumento de custo, seria ainda necessário aumentar a sensibilidade dos sensores para compensar a menor quantidade de luz usada para formar a imagem. E o aumento da sensibilidade traduz-se num aumento do ruído. Dadas as condicionantes desta abordagem, o caminho seguido pelos fabricantes tem sido o de aumentar a área dos sensores e não o inverso.

Alguns fabricantes fornecem conversores ópticos com uma relação 0.7x ou 0.8x, o que traria as distâncias focais mínimas para cerca de 28mm. Infelizmente, não só têm um custo muito elevado como são específicos para uma máquina ou conjunto de máquinas. Dada a rápida obsolescência do material digital, a cada nova máquina seria necessário comprar um novo conversor.

Diafragma limitado

A latitude de operação do diafragam é algo que preocupa qualquer amador esclarecido mas que é normalmente ignorada pelos utilizadores das máquinas compactas. Aliás, constato que quando alguém comprara as especificações de várias máquinas digitais com vista a uma compra, preocupa-se primeiro com a resolução do sensor (número de pixels da imagem) e depois com a extensão do zoom. Por vezes, preocupa-se com os formatos dos cartões; mais raramente preocupa-se com as pilhas. O resto (obturador, diafragma, ...) fica esquecido.

Por isso, não me surpreende que os diafragmas das máquinas digitais para amadores tenham uma latitude tão estreita. Estão perfeitamente adaptados às utilizações típicas que se esperam de uma compacta "point and shoot": oferecem uma boa profundidade de campo para retratos ocasionais, famílias e instantâneos de férias, perdoando pequenos erros de focagem e composição.

Infelizmente, algumas outras utilizações são ignoradas. É difícil encontrar lentes com pouca profundidade de campo para destacar o motivo do contexto. Primeiro as lentes são menos luminosas - encontrar uma lente melhor do que f/2 é quase impossível -, depois, as grandes angulares - que têm menor profundidade de campo - são raras e caras; fiinalmente a profundidade de campo equivalente é aparentemente superior à de uma lente convencional do formato 35mm. Para conseguir reduzir a profundidade de campo temos de nos aproximar muito do sujeito da fotografia.

Escassez de acessórios padronizados

Finalmente, quero mencionar a escassez de acessórios adaptáveis a várias máquinas da mesma marca ou até de marcas diferentes. Embora desagradável, acho compreensível esta situação. O mercado da fotografia digital é muito recente e por isso, não foi ainda sentida a necessidade de criar padrões que permitam a interoperabilidade dos acesssórios.

Actualmente, estão padronizadas as roscas para tripés e pouco mais. Há uma multidão de suportes de armazenamento e cada consórcio que propõe um formato esforça-se por levar os demais de vencida. Havia alguma padronização nas pilhas (tipicamente, pilhas LR6 ou AA) mas até isso está em regressão, surgindo em seu lugar pilhas de iões de lítio proprietárias, com formatos incompatíveis.

Na minha opinião, o que faz mais falta são os hot shoes para flashes externos. Os flashes internos das máquinas têm um número guia demasiado baixo para fotografar um grupo ou iluminar homogeneamente uma sala. Em 2000, algumas máquinas de amadores de topo traziam ligação a flashes externos - por exemplo a HPC912 ou a Olympus C2000z - mas essa opção desapareceu nos modelos mais recentes. A seguir aos flashes, fazem falta os suportes para filtros; quer uma rosca padronizada com diâmetros de 31mm, 38mm, típicos das máquinas de filmar ou de 49mm a 75mm, típicos das objectivas de 35mm, quer um sistema de porta filtros como o sistema A da Cokin.

A consequência desta política é a reduzida dimensão do mercado de acessórios, limitando a qualidade e as áreas de trabalho de fotografia digital.

 

Conclusões

A fotografia digital entrou no mercado de consumo em Portugal em 2002. Já é competitiva por comparação com as máquinas analógicas compactas "point-and-shoot" mas mantém limitações significativas para os utilizadores de máquinas reflex.

Das limitações abordadas, acredito que o atraso no tempo de disparo e as sequências de fotografias melhorem nos próximos anos pois estão na senda do desenvolvimento da tecnologia: maior capacidade de processamento e memórias maiores e mais baratas. Já o uso de grandes angulares e de diafragmas com maior latitude de utilização são requisitos de uma pequena fracção de utilizadores e não deverão estar nas prioridades dos fabricantes. Quem os quiser terá de pagar uma reflex digital de topo de gama. Por último, a padronização dos acessórios é uma questão de política comercial. Creio que os fabricantes considerão essa hipótese quando os mercados estiverem mais maduros e já não houver interesse em lançar novos modelos várias vezes por ano.

Referências

Por omissão, as referências indicadas estão em inglês.

  • Olympus C2000z
  • Fujifilm FinePix S2 Pro [português] ou [inglês]
  • Canon EOS-1Ds
  • HewlettPackard HPC 912
  • Sistema A da Cokin
  • ©2002 João Gomes Mota
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    Escrito em Agosto de 2002. Última alteração em Agosto de 2003. inicio da página